Pneus nos pés

Posted on 05/04/2007

27


por Lícia Santos 
 
 
Há mais de 25 anos no ramo das sandálias, João Batista Nery, mais conhecido como João das Sandálias, começou a produzir os famosos chinelos de pneu a partir dos seus 14 anos de idade, Hoje, aos 39 anos, não pretende parar de fabricá-las tão cedo. É do seu trabalho manual e rotineiro, que Nery sustenta a família. Ele vive, exclusivamente, em função das produções e vendas dos chinelos de pneu. João das Sandálias é bastante reconhecido pelo trabalho de reciclagem que vem fazendo. 

Os chinelos de pneus ficaram bastante conhecidos no Brasil na chamada era hippie dos anos 70, quando as pessoas aderiram ao uso desse tipo de sandálias. Uns 10 anos após essa epidemia foi que surgiu para João e seus amigos a idéia de fazer os chinelos, no Vale do Capão. Nery conta que ele e os amigos resolveram construir alguns quiosques de sapé e que essa espécie de planta os furava. Para solucionar esse problema, o artesão e seus amigos resolveram reaproveitar os pneus que, aparentemente, não serviam para mais nada e criaram as sandálias. A partir daí o artesão passou a dedicar-se à fabricação dos chinelos de pneu, pois todas as pessoas que as viam queriam um par.

Quando o artesão saiu do Vale do Capão, com destino à Salvador, tinha a intenção de só acompanhar a sua irmã Aracildes Nery, que trazia o sobrinho dele para realizar uma cirurgia nos olhos. Mas, chegando aqui, uma das suas clientes soteropolitanas, que conheceu em Lençóis, encomendou seis pares de suas sandálias, o que adiou a sua volta a cidade de origem. Após dar início a produção dos chinelos, João das Sandálias não parou mais. Ele revela que já tem 15 anos morando e trabalhando em Salvador: “Foi uma tentativa que deu certo, vim sem propósito e consegui milhares de coisas aqui, família, amigos e um meio de sobreviver”.

Vida de cigano
João das Sandálias chegou a morar por dois anos em Itapuã. Mas, logo em seguida, foi morar e trabalhar no bairro da Mouraria, local onde está até hoje. “Tenho como característica não me apegar em lugar algum, vim do Vale do Capão para cá e já morei em vários bairros. Sou um cigano”, brinca o artesão. A sua casa e também atelier fica próximo ao armarinho Lê Biscuit, na rua do Paraíso, é bem fácil de localizar, pois no portão de entrada de sua residência há um chinelão de pneu. Por ser um bairro situado no centro da cidade, o artesão confessa que se beneficia com a localização.

Marcelo Silva, 19 anos, morador da Mouraria, conhece João das Sandálias há sete anos. Silva conta: “Um dos meus amigos veio consertar uma sandália de marca com João. Acho o trabalho dele nota 10, velho!”. Atendendo aos mais diversos tipos de clientes, Nery já criou uma clientela fixa, que sempre volta a sua banca para comprar mais produtos e, se não compra, leva um amigo que gostou das sandálias e quer tê-las. Carlos dos Santos, 30 anos, morador do bairro de São Caetano, diz que conhece o artesão há nove anos. Entusiasmado, Carlos confessa a qualidade do produto: “As sandálias que ele faz são maravilhosas! Há sete anos uso essas aqui que tenho nos pés”.

Orgulho
Satisfeito pelo reconhecimento do seu trabalho, João das Sandálias parece saber o que seus clientes pensam. Acredita em seu trabalho e fala com satisfação das coisas que já fez, enumerando as várias participações em feiras de artesanatos realizadas no Parque de Exposições de Salvador. Além de artesão, Nery já trabalhou no Museu de Tecnologia por um ano e também no Projeto Oficina de Invenção 2001, ensinando a jovens como fazer artesanato.

Além de produzir os chinelos de pneu, Nery fabrica cintos e bonés, e também conserta sapatos e bolsas. Ele faz as sandálias em sua própria residência e sem ajudantes. Segundo o artesão, pela experiência que vivenciou quando possuía ajudantes não ter sido agradável e recompensável, decidiu trabalhar só. No processo de fabricação das sandálias, o artesão corta primeiro o pneu que é comprado na recalchutadoura, em seguida lixa e monta os chinelos. O artesão faz de três a quatro pares por dia, cada par de sandálias leva uma hora e trinta minutos para ficar pronto e tem, no mínimo, duração de cinco anos. Os preços variam entre R$ 12, R$ 15 e R$ 18. 

Anúncios
Posted in: PERFIS