Vendedor de picolés e de sonhos

Publicado em 24/08/2007

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por Renata Borges 

 

Aos 51 anos, Antonio Pereira dos Santos já pode dizer que fez de tudo um pouco, um dia. Rodoviário aposentado, “Seu Antonio” , como é chamado, teve que procurar uma outra profissão para poder sustentar seus oito filhos, virou então vendedor de ferro-velho, mas não era bem o que queria, foi vender sonho (um tipo de pão doce) descobriu assim a sua vocação: vendedor. Os negócios como vendedor de sonhos não renderam muito, por isso no limiar da crise foi vender picolé em porta de colégios e alguns bairros. A empreitada deu tão certo que Antonio vende picolé já há 25 anos. 

Ao ouvir o sino que Seu Antonio traz consigo, as pessoas parecem se encantar. Basta chegar para que todos se aproximem querendo comprar um picolé. “Compro na mão dele desde pequenininha, hoje já estou no terceiro ano e continuo comprado, não sei o que vou fazer quando acabar as aulas. Venho aqui só para matar as saudades”, disse Roberta Veloso. O picolé vendido por este homem deve ter sabor especial, pois parece que ele seduz a todos. Conhecedor das crianças, Seu Antonio tem até um truque para chamar clientes: “Faço sorteio de picolé. As crianças entram na fila, distribuo papel e quem tiver sorte ganha um picolé de graça”, conta o vendedor.

Mas este não é o único encantamento que faz. Na compra de um picolé, o cliente ainda pode ter o palito premiado, o que vai dar direito a outro inteiramente grátis. O sucesso de Antonio não está restrito apenas a porta de colégio. Por onde passa chama a atenção de uma legião de admiradores. “Eu conheço Seu Antonio desde pequeno, ele vende picolé lá no meu bairro. Ele é responsável pela lembrança gostosa da minha infância. Até hoje quando escuto o sininho tocar, saio correndo para comprar. Pareço uma criança”, conta Luiz Carlos Ribeiro, morador do Cabula, um dos bairros que o vendedor atende.

“Todos os dias saio de casa às 8h e vou abastecer a minha caixa no Bonocô, de lá venho para cá (Nazaré). Fico aqui na praça das 11h45 às 12h30, que é quando acabam os picolés. Daqui vou em casa almoço e volto para reabastecer e então sigo para o Cabula, Doron, Narandiba que são pontos onde já tenho uma clientela garantida”, explica Seu Antonio, enquanto atende aos seus clientes.

Casado há mais de vinte anos, o vendedor tem como seu maior tesouro a família. “São 8 filhos todos adultos, o mais velho tem 26 e o mais novo 18 anos. O maior orgulho de Seu Antonio é ter criado seus filhos vendendo picolé: “Quem não tem os segundo grau, foi porque não se interessou, dei a todos a chance de estudar”, conta o vendedor. Ele ainda fala com maior orgulho da filha que ingressou recentemente na UFBA, e está fazendo o curso Letras. Antonio vê na mulher, Leda, sua maior aliada. Ele a define como a fortaleza que rege sua vida.

Fazedor de sonhos

Seu Antonio é lembrado pela maioria de seus clientes como o tio que sempre está brincando para poder vender seu picolé, e assim ele cresceu junto à memória de seus fregueses mais antigos. Não é difícil encontrar um cliente que ele não reconheça, se não sabe o nome, lembra sempre de algo marcante que o cliente fez. Sidney Roberto conta que Seu Antonio é um manipulador de mentes infantis e explica que não conhece ninguém que tenha a metade da capacidade de fazer envolver como a dele. Sendo um fazedor de sonhos, este homem também acalentava um que guardou durante um bom tempo de sua vida, que era o de ser professor: “Meu sonho era ensinar, adoro lidar com a mente, principalmente de crianças. Quando mais jovem não tive a oportunidade de estudar, mas depois que formei meus filhos tomei coragem e entrei na escola”.

Aos 38 anos, ele concluiu o segundo grau e realizou o sonho de ter um diploma. Antonio afirma que não irá parar por aí e planeja fazer uma faculdade por que, antes de morrer, ainda vai ser um professor. “Mas tudo isso ainda vai demorar um tempo. Se terminei o segundo grau com trinta e oito anos, por que não posso cursar uma faculdade ao sessenta?”.

(junho de 2004)

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