Pai Oxalá e Mãe Janaína

por Pedro Cavalcanti

Perto das 2h da madrugada, movimento incomum em torno dos 110 mil metros quadrados de espelho d’ água na avenida Vasco da Gama. Senhoras vestidas de branco carregam grandes cestas na cabeça, ocupadas por flores, alfazemas, espelhos, pentes, lenços, batons e outros itens da vaidade feminina. Alugam dois barcos: “Pai Oxalá e Mãe Janaína” e “Oxumaré”, guiados por Manoel e Marcelo, seus remadores. Vêem trazer suas oferendas à Oxum, orixá das águas doce, lagos e fontes. Esse Ritual prescede as comemorações do dois de fevereiro, dia de Yemanjá, narra Vítor Menezes Dórea, proprietário dos barcos no Dique do Tororó. Ele esclarece que primeiro é preciso oferecer na água doce, para depois então seguir para o mar. Tradição fortalecida anualmente e, segundo ele, a principal função das embarcações que, há 43 anos, estão sob os seus cuidados.

Palco do sincretismo religioso soteropolitano, por sediar a Paixão de Cristo, durante a semana santa, e abrigar símbolos do candomblé, o Dique do Tororó foi construído no século XIX com o represamento do rio Lucaia. Estendia-se desde as proximidades do Campo Grande até a vizinhança do forte do Barbalho.

Hoje, após vários aterramentos, a partir da década de 40 do século XX, localiza-se no vale entre o Tororó e o Engenho Velho de Brotas. Itinerário percorrido de segunda à sexta-feira por Valdinice, uma babá que utiliza um dos barcos, “Pai Oxalá e Mãe Janaína”, para fazer a travessia, desembolsando R$ 0,50 a cada viagem, “mas vai aumentar pra R$ 1”, alerta Seu Vítor que reclama do baixo movimento: “Agora que passa Lapa do lado de cá ficou mais difícil”. E acrescenta: “Antes da reforma era melhor”, apontando a recuperação do Dique como principal responsável pela queda na demanda de transportes para oferendas. “Hoje o pessoal tem vergonha de oferecer aqui, antes não, era tudo coberto de mato, ninguém via”. Por outro lado, a revitalização trouxe turistas que, a bordo do Oxumaré, podem passear de barco ao custo de R$ 25 para seis pessoas.

Acompanhados pelo pantheon de oito orixás, entre eles Oxalá (o pai de todos os orixás), Yemanjá (deusa do mar e mãe dos orixás) e Oxum (deusa dos rios, lagos e fontes), os remadores Manoel e Marcelo observam o modo em que estão dispostas as esculturas de orixás do artista plástico Tati Moreno. Formam uma roda, na posição em que os filhos de santo incorporados pelo orixá costumam dançar nos terreiros de Candomblé. Manoel, apesar do ar sisudo, parece crer nas forças superiores para resgatar seu time, o Bahia, da terceira divisão. Dedicação que virou ofício, desde quando passou a trabalhar como cambista no estádio da Fonte Nova.

A dama de copas curvou-se frente à beleza de Yemanjá. Representada em duas imagens expostas no barco, Janaína, como também é conhecida, observa o movimento das cartas do jogo de buraco. Cotidianamente, senhores aposentados reúnem-se no pequeno cais, escondido por um toldo branco, próximo ao Habib’s, para o carteado. Concentrados, mal percebem a pressa dos seus vizinhos, pessoas de todas as idades que buscam ansiosamente o bem-estar físico. O que, para os jogadores, parece ser uma preocupação distante, denunciada na precisão e na lentidão dos seus gestos.

“Canastra”, anuncia Seu Chico do Pastel, responsável pela guarda dos barcos à noite. Além de pasteleiro, trabalha nesse ofício há oito anos e reclama da sua situação irregular: “A Conder deveria assinar nossa carteira”, denuncia num tom amistoso. Contrariando o afirmado pelo coordenador de Parques da Conder, Geraldo Matos, que diz não haver nenhum vínculo direto entre o órgão e os barcos de Seu Vítor. Situação que destaca o contraste entre a realidade burocrática e a tradição que Seu Vítor, Seu Chico, Manoel e Marcelo ajudam a manter.
(novembro de 2006)

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