Mouraria dia e noite

 

por Vanessa Mendes

 

Tranqüilidade. Como um bairro situado no centro da cidade do Salvador, mais precisamente entre a avenida Joana Angélica e Barroquinha, pode ser tão tranqüilo? Pelo menos durante o dia, há uma certa paz que só é quebrada pelo vai e vem dos carros e pedestres. Mas, ao cair da noite, há uma metamorfose completa. O cenário se transforma e a tranqüilidade se quebra por completo. Seus bares se abrem para receber o mais variado público. São trabalhadores, estudantes, funcionários públicos e empresários. 

A vida noturna da Mouraria é singular. Os bares são diferentes dos demais de Salvador. As pessoas se sentam em mesas colocadas nas calçadas e até mesmo na rua. Existe até uma loteria que logo no fim da tarde vira um bar muito movimentado. É a loteria do Sousa, um senhor um pouco fechado que não gosta de falar do seu “bar”. Lá, trabalha Alex, garçom há mais de seis anos. “Gosto de trabalhar aqui. O pessoal que freqüenta é muito legal e as gorjetas são boas”, comenta o garçom. O mais famoso é o bar “Os Internacionais”, que diz ter a melhor lambreta da cidade. É o bar mais procurado pelos freqüentadores do local, onde as pessoas chegam a ficar horas em pé a espera de uma mesa.

O perfil dos freqüentadores da Mouraria é bastante variado. São estudantes, trabalhadores, empresários. A recepcionista Duciléia dos Santos começou a freqüentar o bairro há sete anos, quando trabalhava na Fonte Nova. Hoje, trabalha para uma clínica de fisioterapia no Itaigara, mas toda sexta-feira vai ao “Bar do Souza” encontrar velhos amigos. “Já virou hábito. Tenho que vir colocar o papo em dia. Meu fim de semana só começa quando venho a Mouraria. Só não gosto quando chove”. Já para o estudante Vinícius Lage, que faz cursinho ali perto, a Mouraria é ponto de encontro para outras baladas: “O pessoal marca aqui e quando a turma está completa, partimos para a orla ou Pelourinho”. Os ambulantes aproveitam a movimentação noturna do local e vendem de tudo um pouco: flâmulas, queijos e amendoins.

Fundado no século XVIII, o Largo da Mouraria era a área destinada aos primeiros ciganos que vieram degredados de Portugal pelo Conselho Ultramarino, sendo esta a origem de seu nome, segundo o site do Portal de Salvador. O conjunto de casas antigas dá a sensação de termos voltado no tempo. Principalmente por ter presente ali o Quartel General da 6° Região Militar, com um tanque de guerra recepcionando a todos que passam. Na época da ditadura militar, o quartel foi palco de cenas de tortura, onde vários presos políticos foram aprisionados.

Um lugar tranqüilo durante o dia, tendo o seu silêncio quebrado apenas pelos carros, pelo canto dos pássaros ou pelo “moço do picolé”, que anuncia a sua chegada. Vê-se de tudo naquele largo. Funcionam várias casas comerciais e restaurantes, comitês políticos, escolas, cursinho e até mesmo uma escola de música. Paralelepípedos formam as diversas ruas que permitem uma ligação com a avenida Joana Angélica, sua entrada principal, com a Barroquinha.

Fascinante pode ser a palavra que caracteriza a Mouraria. Pela diversidade que a envolve, pelos seus moradores e freqüentadores que tornam o lugar singular e irreverente. Com sua simpática arquitetura e a atmosfera que a envolve, quem vai a Mouraria sempre volta. Mesmo porque, no centro da cidade, todos os caminhos levam até ela.

(junho de 2004)

 

 

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