Pronta para vender

por Marcelle Cirne
 
 
Ponto de ônibus, muita gente circulando, vendedores ambulantes tentando lucrar com o movimento, anunciando seus produtos aos gritos. Uma loucura. Em meio a tudo isso, uma senhora de idade, também vendedora ambulante, de baixa estatura e magra, com um chapéu de palha na cabeça, chupa um pirulito calmamente com o único dente que lhe resta na arcada inferior. Esta é Maria Bispo dos Reis, 64 anos.

Dona Maria começou a trabalhar em 1978, aos 38 anos. Seu ponto de venda sempre foi o mesmo, o largo do Campo da Pólvora, próximo ao Fórum Rui Barbosa. “Eu vim para cá porque o movimento era bom. Eu via as outras pessoas vendendo”, afirma. A ambulante, que trabalha todo dia atrás de um ponto de ônibus, das 7h às 19h, e mora em Cosme de Farias, explicou que quem costuma comprar seus produtos não são os funcionários do Fórum, mas as pessoas que circulam nas ruas e as que ficam no ponto. “Na época que eu vendia milho, eles até compravam, mas isso aqui ninguém de lá compra não”, disse Dona Maria.

A vendedora hoje trabalha comercializando bebidas e doces, mas ressalta que as pessoas quase nunca compram água e refrigerante, sempre dão preferência aos bombons. Maria dos Reis já vendeu um pouco de tudo. Já saiu pela rua com carrinho de cachorro-quente, milho, manga e até laranja. Segundo ela, o produto mais vendido até hoje foi o milho, mas era com uma outra coisa que sonhava vender. “Na época, eu vendia era tudo, mas siriguela era meu sonho”, revela.

Entre tantos ambulantes, que vendem de amendoim torrado a frutas, um carrinho de supermercado ganha um certo destaque. Enquanto todos usam tabuleiros para vender, Dona Maria, a mais velha do local, usa o carrinho para colocar seus doces. A explicação para o uso do carrinho, que ganhou presente, é a praticidade na hora de guardar o material, que é deixado em algum dos prédios vizinhos quando tem que voltar para casa.

Quanto ao rapa, a ambulante contou que já sofreu muito e perdeu grande quantidade de material. “Só carro de milho carregaram uns seis”, reclamou. Para a comerciante, a época de maior luta contra o rapa foi durante o governo do ex-prefeito Fernando José Rocha, no início dos anos 90. Depois do governo de Lídice da Mata (1993-1996), ela diz ter melhorado. “Na época de Fernando José era um horror. Agora, tem uns dois anos que eles não perturbam mais não”, acrescentou.

A senhora que se mostrava retraída acaba se revelando bastante comunicativa. “Pra que é mesmo que você “tá” fazendo isso?”, questiona curiosa. Ao saber que a reportagem não vai ser publicada em nenhum veículo de grande circulação na cidade, ela revela, empolgada, que não é a primeira reportagem da qual faz parte. “Já tirei foto pra jornal”, conta enquanto atira o pirulito que chupava em outro vendedor ambulante, conhecido dela, para que ele confirme a sua história. “É verdade. Outro dia eu trouxe a xerox da foto dela, mas estragou de tanto ela mostrar pra todo mundo”, acrescentou o vendedor José da Silva, 32 anos. A essa hora, o pirulito já se encontrava no chão, mas o chapéu permanece na cabeça. “É por causa do sol, da chuva. Eu não costumo usar ele não”.  Mãe de três filhos, Dona Maria disse que sempre teve como fonte de renda o trabalho de ambulante e garantiu ter criado seus filhos com esse dinheiro. Ela falou ainda que a situação mudou e o dinheiro que consegue ganhar não é mais tão bom quanto era antigamente. “Eu tomo chuva e não vendo nada”, comentou a vendedora. A concorrência com os outros vendedores parece não lhe preocupar. “Dá para cada um tirar um pouquinho, comer um pão de noite”.

A entrevista acaba e um sorriso estampa o rosto de Dona Maria. Ela agradece muito e nem se importa de ter conversado todo aquele tempo e não ter tirado foto alguma para jornal. Alegre, continua no seu ponto, tentando vender os seus doces e suas bebidas.
(junho de 2004)

Uma resposta

  1. gostaria de receber informaçoes sobre cursos.

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