O último dos moicanos

 

por Raphael Carneiro
Fotos: Romildo de Jesus

Já imaginou o maior símbolo de um esporte sendo barrado no templo em que se consagrou? Ou melhor, já passou por sua cabeça que um dia Edson Arantes do Nascimento, o Pelé – sim, ele mesmo, o “Rei do Futebol”, o atleta do século -, fosse barrado na porta de um estádio de futebol? Pois isso aconteceu, e aqui em Salvador, no estádio Octávio Mangabeira, a Fonte Nova.

Seria louco aquele que não permitiu a entrada de Pelé na Fonte Nova? Não. Definitivamente não. O autor dessa façanha é apenas um porteiro que se orgulha de cumprir bem duas funções (e põe bem nisso). Seu Souza, como é conhecido, tem 88 anos de vida e há 53 cuida do portão 3, aquele que dá acesso aos trabalhadores da imprensa no maior estádio de futebol do estado.

Perguntar por seu Souza aos jornalistas esportivos é sempre a certeza de uma boa história como resposta. Desde o esquecimento do nome das pessoas em questão de horas, até a situações como a citada acima, quando Pelé não pôde entrar na Fonte Nova. “Pelé não é da imprensa. Ele não pode entrar aqui. Não tinha nenhum crachá dizendo que era da imprensa, então não deixei entrar mesmo não. E não deixaria hoje”, se defende o porteiro.
Pelé foi apenas mais uma das pessoas que não pôde entrar na Fonte Nova. A história com o “Rei do Futebol” foi simples. Sem querer comprar ingresso, Pelé tentou entrar no estádio pelo portão destinado à imprensa. No entanto, Pelé não contava que iria encontrar Seu Souza pela frente. Assim, Pelé só conseguiu entrar no estádio após meia hora de conversa, mas, por outra entrada.

Apesar de todo o rigor com seu trabalho, Seu Souza não se define como uma pessoal carrancuda. “Eu apenas cumpro com minhas funções quando estou aqui na Fonte Nova. Esse é o meu papel, mas sou uma pessoa tranqüila”, garante. Para muitos, o rigor atual do porteiro tem uma razão: a idade avançada. Na beira dos 90 anos, alguns jornalistas já cobram a aposentadoria do famoso funcionário da Superintendência de Desportos do Estado da Bahia (Sudesb).

E realmente a idade já começa a influenciar no trabalho dele. A prancheta que segura já não é mais o suficiente para sustentar os papéis que leva para cada jogo. Não é difícil vê-lo perdido em meio a essa papelada. Por causa disso, a Sudesb já providenciou um ajudante para auxiliá-lo.

Ritual

E a cena se repete a cada partida. Com sua prancheta, Seu Souza aguarda a chegada dos jornalistas que irão trabalhar no dia. De cara fechada, como a de quem tem poucos amigos, ele vai riscando a numeração de cada profissional que passa.

Mas, o sorriso logo aparece no rosto quando fica sabendo que será tema de uma matéria. “Ah sim, reportagem comigo? Pode fazer sim”. E nesse momento todo o rigor do trabalho é deixado de lado. Seu Souza se esquece do serviço, dá as costas para a catraca e deixa seu ajudante meio desnorteado.

Mesmo com toda a euforia para conceder a entrevista, enganou-se quem pensou que ele iria liberar a entrada de qualquer um. Era só um jornalista chegar para ele interromper a conversa e ir logo barrando: “Epa, vai pra onde? Cadê a sua ABCD (carteira da Associação Bahiana de Cronistas Desportivos)?”.

Uma hora ou outra uma discussão mais ríspida. “Eu vim aqui para trabalhar e você não quer deixar”, dizia uma repórter. Mas seu Souza era irredutível: “Só entra aqui com a carteira”. Apesar da aparente fragilidade que demonstra, ele comentou que nesse meio século de trabalho ali nunca foi vítima de uma agressão. “Quando o pessoal se exalta, eu chamo logo os seguranças. Não sou besta não!”, se gaba.

Quanto ao lado familiar, ele prefere não falar muito. Apenas afirma que vive bem com sua família, que “o que interessa aqui é o trabalho na Fonte Nova”. Nesse momento, mais um jornalista chega e a entrevista é interrompida mais uma vez. “Boa tarde, qual o número?”, pergunta o porteiro. “429”. “Ok. Pode entrar”, diz Seu Souza, antes de questionar: “O que eu estava falando mesmo?”.

Para ele, em uma fase avançada da vida, quando já começa a perder a lucidez em alguns momentos, o que lhe faz feliz é contar algumas histórias por quais passou. Antes de acabar o encontro, ele faz questão de contar mais uma de suas “aventuras”, dessa vez com o jornalista Luciano do Vale.

Segundo seu Souza, Luciano, narrador da Band, estava passando um período em Salvador. Como havia jogo na Fonte Nova, o jornalista resolveu assistir e, naturalmente, tentou entrar pelo portão destinado à imprensa.

“Ele chegou aqui pensando que iria entrar. Ele estava de bermuda. Vê se pode? Aqui só entra de calça”, conta seu Souza. Assim, a solução encontrada por Luciano do Vale foi comprar um ingresso e assistir o jogo nas arquibancadas da Fonte Nova. “Ele comprou o ingresso, veio aqui, me agradeceu e entrou no estádio. No outro dia, ele me elogiou na imprensa escrita, na televisão e no rádio. Até em rede nacional o Luciano me elogiou”, orgulha-se.

Pessoas como Seu Souza estão cada vez mais difíceis de serem encontradas nos dias de hoje. Em época que a corrupção toma conta do país, chega ser um alívio saber que trabalhadores tão corretos ainda existem no Brasil, o último dos moicanos.

Caxias? Nem tanto. Seu Souza é apenas um profissional exemplar, que pela maneira de exercer sua profissão ganhou o reconhecimento de todos aqueles que o conhecem ou precisam passar por ele a cada jogo na Fonte Nova. Barrados ou não, eles sempre entendem a função daquele simples porteiro, que, por alguns instantes, determinou onde uma das maiores personalidades do país poderia ou não entrar.

(junho de 2006)

 

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