Pupileira

Posted on 05/04/2007

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por Mariana Paiva

“Vae este menino, nascido hoje para Roda. É filho legítimo de uma pobre viúva, que não tem nenhum recurso para cria-lo…”. Foi com bilhetes como estes que muitas crianças chegaram, no século XIX, até a Santa Casa da Misericórdia da Bahia, a primeira no Brasil a possuir uma Roda dos Expostos, local onde crianças enjeitadas eram deixadas aos cuidados da instituição. Embora alguns de seus órgãos não existam mais, a Pupileira Juracy Magalhães, a atual creche-escola, que substituiu o orfanato, se mantém em pleno funcionamento, na av. Joana Angélica, no Campo da Pólvora.

Ao passar pelo imenso portão de ferro, surge uma realidade de silêncio e natureza, em meio à agitação da avenida Joana Angélica. Uma rua de paralelepípedo e muitas árvores leva ao complexo arquitetônico da Santa Casa de Misericórdia da Bahia, fundada em 1549, instituição católica para assistir populações locais. Muito mudou desde seu surgimento. É o que conta Irmã Maria Inês, responsável pela Capela Nossa Senhora das Vitórias, na Pupileira: “No lugar do Internato, agora funciona uma creche-escola com 270 crianças assistidas diariamente. Muitas funções da Santa Casa foram transferidas para cá, como a Contabilidade”. Outras mudanças ressaltadas por Irmã Maria Inês são a segurança e o estacionamento criado na Pupileira. “Em termos religiosos, a mudança foi nas pastorais, os funcionários podem ter acesso, assim como pessoas de fora”, ressalta a Irmã.

Atualmente, além de ser responsável pela Capela, a Irmã administra grupos de oração e projetos assistenciais, como uma escola para crianças carentes, há doze anos. “Sou muito feliz aqui, muito realizada, gosto muito da Pupileira. Amo a paisagem, o ar puro, o espaço lindo e meu trabalho. Não me canso”, conta alegre e incansável Irmã Maria Inês. No lugar, crianças brincam e merendam no pátio da creche durante o recreio.

A Santa Casa de Misericórdia é administrada por um provedor, escolhido por um conselho, e não é subordinada ao governo nem a instituições religiosas. O Hospital Santa Izabel e o cemitério Campo Santo são algumas das instituições que mantém financeiramente a Santa Casa. Sua história é detalhada na publicação de 2001 “Ações Sociais da Santa Casa de Misericórdia da Bahia”, de Paulo Segundo da Costa, da editora Contexto e Arte. No livro, o autor explica cada uma das instituições ligadas à Santa Casa de Misericórdia da Bahia, seus aspectos históricos combinados com documentos de cada uma das épocas citadas.   

O administrador de empresas pernambucano Antonio Ivo, 52 anos, trabalha como secretário geral da Santa Casa de Misericórdia da Bahia. Há seis anos e meio no cargo, Antonio conta que é um prazer ter um local de trabalho tão bonito como a Pupileira: “Quando comecei a trabalhar aqui, achei que era um oásis. Essa ligação minha vem porque toco piano, e a arte está muito ligada à natureza”. Antonio ressalta que a Santa Casa foi criada na Praça da Sé, onde é sua sede, mas, para racionalizar custos, muitas funções foram transferidas para a Pupileira. Além disso, conta que uma das mudanças mais importantes do local foi a organização: “As pessoas vinham, punham os carros nas alamedas. Não havia uma estrutura profissionalizada.” Segundo o secretário, a Santa Casa tem como marca a independência política e religiosa para se manter.

Antonio Ivo acha inspirador o ambiente da Pupileira, e não disfarça sua satisfação. Conta, sensibilizado, uma das inúmeras histórias emocionantes que ali viveu: “Recebemos a visita de quatro alemães que queriam conhecer a Santa Casa. Fui andando e dizendo que gostaria de tocar uma canção de Bach para eles, se pudesse. E para minha surpresa, quando comecei a solfejar, cada um deles entrou numa voz: soprano, tenor, contralto e baixo. Isso para mim é válido demais”.

 

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