Bairro de família

Publicado em 05/04/2007

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por Renata Borges 

Tido por seus fiéis moradores como o bairro mais bem localizado de Salvador, Nazaré é um bairro atípico. Sem final de linha, ele se equilibra no meio do caminho de outros bairros – o Barbalho e o centro da cidade -, mas se orgulha de possuir uma infra-estrutura que outros bairros não possuem. De lá, se pode ir aos mais diversos lugares. A pé, dá para ir a Piedade, Barris, Pelourinho, Saúde. De ônibus, basta querer chegar a qualquer lugar.

Nazaré tem de tudo: de grandes colégios tradicionais às mais simples barracas de camelô; de velhas casas em ruínas a mansões bem conservadas. Lá estão localizados grandes hospitais como o Santa Izabel; o Santa Luzia, especializado em olhos; o antigo Hospital Naval, hoje Oswaldo Luz, especializado em queimaduras; as maternidades Climério de Oliveira e Manoel Vitorino e o Colégio Salesiano. No centro de tudo isso, está a biblioteca Monteiro Lobato e a praça Almeida Couto.

Instalado há dezoito anos em uma banca de revista, que fica no fundo da biblioteca, e quase em frente ao Salesiano, está Luiz Gonzaga, 56 anos. “Vi esta praça passar por grandes mudanças: boas e ruins”, disse o vendedor. Ele afirma já ter visto de tudo, bêbados, malucos, marginais, pessoas de bem. Todo tipo de ser humano que pode passar por uma praça. Gonzaga lembra que há dez anos atrás a praça estava quase impraticável de freqüentar: “Os mendigos e pivetes moravam aqui, além dos malucos. Aqui mesmo eles faziam de tudo: comiam, dormiam e faziam suas necessidades. Depois que cercou a praça, nunca mais ficou aquele mau cheiro”, conta.

Praça, biblioteca, grandes hospitais, uma boa vizinhança, o que mais poderia faltar a este bairro? Policiamento. O jornaleiro conta que já presenciou várias cenas de assalto, dos mais simples até os que tiveram desfechos inesperados. No passado, o problema da segurança era maior, pois quem habitava a praça eram marginais. Considerado ainda hoje um lugar perigoso, a praça Almeida Couto ainda traz algo de interior, afinal, nem só de infelicidades vive uma praça.

Ali ainda é possível ver casais de namorados, crianças brincando, figuras inusitadas como um velho médico que já nem enxerga mais direito e ainda trabalha no hospital Manoel Vitorino, o soldado Jackson, que todos os dias pega jornais e revistas emprestado para ler durante seu plantão, dentre outras pessoas que passam por lá e já têm com o jornaleiro um relacionamento de amigo.

Localizada em frente ao Hospital Santa Izabel está a biblioteca Monteiro Lobato, voltada para o público infantil. Em outros tempos se encontrava impedida de atender a pesquisas devido ao grande número de marginais que habitava a área. “Até hoje aqui tem muito marginal, não há policiamento. Os malandros ficam aqui perambulando e intimidando as pessoas que passam”, afirma o técnico em radiologia Nerivaldo Portugal, que trabalha há cinco anos no Hospital Santa Izabel e se mostrou surpreso ao ver famílias passeando na praça como há muito tempo não via. Lotado na 2ª Companhia Independente da Polícia Militar,o soldado Jackson afirma que a situação no local já foi pior, que hoje se pode até sentar na praça para se tomar um sorvete.

As praças perderam a sua função de diversão e passaram a ser sinônimo de morada de mendigos e marginais o que fez com que moradores e admiradores da vida também abandonassem esses momentos de apreciação. Tudo isso é apontado por muitos que afirmaram passear por lá em outros tempos. Moradora há 33 anos do bairro, a dona de casa Ivete Paraíso conta que a praça era um lugar maravilhoso de passar as tardes, pois ainda com pouco comércio não havia tantos marginais. “O prédio onde moro tem 55 anos de construído, foi o primeiro edifício daqui de Nazaré. Vi todos os progressos e retrocessos que o bairro sofreu”, disse Ivete. A dona de casa ainda conta que a casa do governador Hélio Machado é hoje um supermercado. Segundo sua descrição, era uma casa verde e bela, com um jardim muito bonito, mas o progresso destruiu para construção de um prédio comercial.

Em se falando dessa praça a maioria das pessoas que a utilizam parece entrar em um consenso: que ela está bela, mas precisa de segurança. Este parece ser o principal problema da população que habita e desfruta da praça Almeida Couto, que aliás possui algumas curiosidades como possuir no centro uma estátua de D. Pedro II e, em outro canto da praça, um busto pequeno do Conselheiro Almeida Couto, que ninguém sabe quem foi.

 

 

 

 

 

 

 

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Posted in: CIDADE